Visões, Viagens, Percepções

Uma mente inquieta num mundo em transformação constante e rápida. Uma criança ávida pela busca de saber melhor onde se encontra e qual seu papel nessa Grande e Divina Suruba chamada Vida!

terça-feira, novembro 15, 2005

Genialidade que não tenho.


Sutra do Girassol


Allen Ginsberg

Caminhei nas margens do abandonado cais de lata onde outrora descarregavam banana e fui sentar na sombra enorme de uma locomotiva lá perto para olhar e chorar o sol morrendo em ladeiras sobre as casas todas iguais.
Jack amigo Kerouac sentou-se ao lado no ferro de um mastro roto partido e a gente caiu na maior fossa do mundo, os dois ilhados, dois contidos
na rede das raízes de aço, e eu e Jack pensando os mesmos pensamentos da alma.
No rio a correnteza de óleo refletia o céu rubro, o sol caía pelas alturas finais de San Francisco, sem que houvesse peixe nessas águas, sem que houvesse um ermitão nas montanhas, só a gente com olhos de ressaca e remela, feito vagabundos, cheios de astúcia e cansaço.
Olha só um girassol, Jack então disse, e havia o vulto inerte e cinzento
seco, do tamanho de um homem, recostado num monte milenar de serragem.
- Eu pulei de alegria e era o primeiro girassol de minha vida, eram memórias
de Blake - essas visões - o Harlem e os rios do inferno-leste, sanduíches indigestos trotando um ranger de pontes, carrinhos de bebê encalhados, esquecidos
pneus de bojo negro careca, penicos & camisas-de-vênus, o poema da margem, canivetes, nada inox, só o mofo o lixo de tantas coisas cortantes cujo fio passava
para o passado - e o cinzento girassol se equilibrando ao sol-posto, desmanchando-se abatido na invasão da fuligem, da fumaça, do pó
de velhas locomotivas no olho - corola e também coroa com as pontas amassadas virando, com sementes despencando do rosto, rompendo em breves dentes um dia claro, raios de sol grudando em seu cabelo riscado como uma exangue teia de aranha de arame; caule com braços-folhas jogados, os gestos da raiz de serragem,
pedaços de reboco minando nos galinhos queimados e uma mosca estagnada no ouvido, você de fato era uma incrível coisa imprestável, ó meu girassol minha
alma, e como eu te amei então! sujeira não era parte do homem, era a parte da morte e das locomotivas humanas, simples roupa empoeirada, o simples véu da pele férrea, a cara da fumaça, as pálpebras da escura miséria, a mão ou falo ou tumor mortiço do imundo motor moderno industrificial disso tudo, o bafo da civilização poluindo tua coroa muito louca de ouro - esses turvos pensamentos de morte, a grande falta de amor em fins e olhos tapados, raízes abafadas em areia e serragem, os dólares raspantes elásticos, o couro das máquinas, as
tripas enroscadas de um carente carro que tosse, as solitárias latas baratas com línguas rotas de fora, e o que mais seja, a cinza que escorre pela boca na ereção de um charuto, a boceta de um carrinho de mão, ou os seios acesos de viaturas lácteas, o rabo gasto que as cadeiras expelem, o esfíncter dos dínamos - tudo
isso embolado nas raízes-múmias - e você aí de pé na minha na tarde da minha frente, a sua glória em sua forma!
Beleza perfeita, um girassol! uma tranqüila e girassol existência excelente e perfeita! um olho doce natural para a melancolia da lua nova, desperto vivo excitado sacando no crepúsculo sombra a brisa mensual de ouro aurora!
enquanto você lançava blasfêmias para o céu da via férrea e sua própria floralma,
quantas moscas zumbiram na sua extrema imundície sem ligar para nada?
Quando, flormortapobre, você esqueceu que é uma flor?
quando olhou sua pele e decidiu que era a velha suja locomotiva impotente? o fantasma de uma locomotiva? o espectro e sombra de uma já poderosa
locomotiva americana maluca? não, girassol, você não foi locomotiva nunca, você foi sempre um girassol! você, locomotiva, você é o motivo louco de sempre, a locomotiva! pensando isso peguei o grosso girassol esqueleto e o finquei a meu lado como um cetro fiz o meu sermão à minha alma, e também à de Jack, e tambérn à de todos que ainda queiram ouvir: Não somos a sujeira da pele, não somos nossa locomotiva medonha triste poeirenta com ausência de imagem, nós somos todos uns lindos girassóis por dentro, somos sagrados por nossas próprias sementes & peludos pelados dourados corpos de ação virando girassóis ao crepúsculo loucos girassóis formais e negros que esses olhos espiam na sombra da locomotiva maluca margem beira San ladeiras Francisco tarde de lata sol-posto sentar-se vision.

PS. Como sou um escritor medíocre, tomei a liberdade de pegar emprestado umas idéias, mas devidamente citado.