Visões, Viagens, Percepções

Uma mente inquieta num mundo em transformação constante e rápida. Uma criança ávida pela busca de saber melhor onde se encontra e qual seu papel nessa Grande e Divina Suruba chamada Vida!

segunda-feira, abril 10, 2006

Sonhos

Há sempre uma ponte, incompleta, sempre falta um pedaço na ponte. E há o perigo. Não se pode atravessar aquele rio com a ponte incompleta. Mas mesmo assim continuo o caminho, existem alguns pedaços de madeira podre por onde tento atravessar. Elas se rompem, sempre se rompem.

Os sonhos da infância nos parecem tão reais, talvez mais reais do que os fatos que realmente vivenciamos. A fantasia nos inspira mais que a realidade e sempre acrescentamos algo às nossas realidades para que talvez sejam menos reais e mais fantasias.

As fantasias talvez tenham algo de real, sem elas não seríamos capazes de sermos tão reais. Há realidade demais. E os sonhos sempre voltam.

Em meus sonhos não consigo ser violento, meus tiros não ferem e meus violentos movimentos ocorrem sempre em câmera lenta. Nunca me machuco ou a alguém. Ninguém sai ferido.

Acompanho então o noticiário, e a violência está lá. Serão meus sonhos um porto seguro? Cansei de falar sobre cais e barcos. Aviões que descrevem piruetas no céu. Mas nunca andei de avião.

Cada um conhece sua dor, todos, sem exceção temos o ponto onde dói, a maldita ferida que não cicatriza.

A morte cheira a sangue fresco. È quase imperceptível a diferença entre o cheiro do sangue necessário à vida e o que se esvai com a morte. A vida tem cheiro de morte e talvez, mas só talvez, exista a vida após a morte.

Mas briguei com um Cara. Esse Cara se acha o dono do mundo. Alguns o vêm como o salvador. Para mim, um grande ditador. Ou talvez distorçam suas mensagens em forma de punições e doutrinas sociais. Nunca matei, nunca roubei (copos em buteko contam?), já cobicei a mulher alheia.

Mas o mundo é minha ponte, sempre falta um pedaço, para conseguir atingir meus objetivos tenho que atravessar por tábuas de madeira podre que se rompem sob as passadas de um metro e noventa de pura descrença.

Um sorriso, uma dose violenta de felicidade, é disso que preciso. O trago de um líquido feminino que gere vida.

E nesse instante acordo com o sol queimando meu ombro, mas da próxima vez não me virarei para o lado para que ele reflita em minhas costas e não no meu rosto. Sorry Buk. Encararei seus reflexos até me cegar. Como são os sonhos de um cego que nunca enxergou na vida? Isso eu não poderei responder, mas criarei meu próprio mundo inventando signos lingüísticos para descrever os objetos ao meu redor. My world, my rules.

E continuarei a dormir até tarde, sonhando não mais com pontes, mas sim com a não interferência do homem na natureza, com a necessidade de que eu cuide de meu corpo para que ele resista à travessia.

2 Comments:

Anonymous Anônimo said...

Está lá!
http://hilam.tripod.com/dolencias.htm

Dolências
Baseado em fatos (ir)reais

Cenário:
- - Quadros com figuras grotescas
- - Um fogareiro aceso
- - Jornais, garrafas, latas

Personagens:
Persigal
Homem 1
Homem 2

Ato Único

(Entra Persigal, um sujeito velho, capengando, segurando um cajado numa das mãos e um saco cinza-preto na outra, tipicamente o mendigo-eremita moderno)

PERSIGAL – Não há saída! Eu firo duramente aqueles que me ferem... E o larvário da cidade cresce, igual a um parto, um grande feto que vem substituir a espécie humana! TARA BUBA COME, TARA BUBA CAGA. E a morte é realmente um tédio, realmente um tédio...

(Ele grita, reza, e tira de dentro da roupa, próximo ao coração, um grande chumaço de algodão embebido de sangue cênico. Coloca o algodão dentro do saco e começa a rir descontroladamente. Ri. Do seu saco cinza-preto saltam duas pessoas.)

HOMEM 1 – Mas que calor dos diabos está fazendo! Eles nunca nos deixarão dormir até que estejamos mortos e então eles pensarão em algum novo truque...

HOMEM 2 – Experimentando a confusão da liberdade, você devia me pagar uma bebida gelada, não acha?

HOMEM – Acho a vida vagamente interessante, ao invés de realmente aterradora. Você viu as notícias ultimamente?

(As pessoas conversam sobre as notícias. Futebol, guerra, assassinatos. Não notam a presença de Persigal sob hipótese nenhuma. Enquanto isso, Persigal ri. Ainda rindo, chuta algumas latas, se aproxima do fogareiro e pára como que por respeito. Tocam sinos, ele se coloca frente ao fogo, olhos postos no chão, o corpo balançando como se fosse um pêndulo. Luz branca e forte em cima dele.)

PERSIGAL – Eu venho me sentindo estranho ultimamente, quase como se estivesse ficando louco. Essa luz, rouba de mim as chaves da prisão e eu morro! Como as folhas que brotam na primavera e crescem rápidas à luz do sol; e quando passa a plenitude desse tempo é melhor morrer do que viver!

(Persigal solta o cajado e cai de joelhos, em cima do saco. Ele deverá encenar um parto [ou uma cagada], tirando de dentro do saco o manto embassado [o filho ou a obra]. Luz ameniza.)

HOMEM 1 – Viu o que aqueles árabes loucos estão aprontando? Também aquele povo não pára de guerrear?

HOMEM 2 – Eu achei muita cara-de-pau eles derrubarem aquelas torres. Deixaram o Bush com cara de peão...

PERSIGAL – Nenhuma dor significa o fim da sensibilidade; cada uma de nossas alegrias é uma barganha com o diabo.

(Riem todos juntos.)

PERSIGAL – A diferença entre a Arte e a Vida é que a Arte é mais suportável. Quase todo mundo nasce gênio e é enterrado imbecil.
Ah, meus pés de puro carvão! Estou como o tempo, pousado nas calçadas! Paz de todos os esquecimentos...
Homem mortal, não queiras predizer o que o Amanhã trará. É rápida a mudança... Pequena é a força do homem, vãos os seus cuidados; para nós, em vida curta, só existe fadiga após fadiga...

(Luz aumenta. Persigal levanta, tira restos de comida e bebida do saco e começa a dançar e festejar. Canta, come e ri. )

HOMEM 1 – Cara-de-pau é daquela menininha que seqüestrou a filha do ricaço, para distribuir cestas de alimentos para os necessitados. (irônico) Dá uma dó!...

HOMEM 2 – O cara fez a cabeça dela direitinho...

HOMEM – Fez a cabeça, o quê! Ela sabia muito bem o que estava fazendo...

PERSIGAL – (correndo pelo palco e tentando se relacionar com as pessoas) Não há ninguém de onde possa partir uma idéia? Se foder o mínimo possível, de modo que você possa entrar onde você pretende entrar? De que vale a vida cheia de símbolos diversos, se quem vale a vida é cheio de símbolo fixo?

(Som grotesco, fazendo com que Persigal se volte para o fogo e emita grunhidos, como se estivesse respondendo uma pergunta. Novo som grotesco. Persigal se volta para o lado oposto das pessoas e responde grunhindo. Deixa as pessoas completamente e se volta para o fogo.)

PERSIGAL – A vida declara seu amor na existência do corpo fétido. Tento chorar, mas sinto os olhos enxutos. A forma não tem importância, é o fundo que conta. Nada é gratuito neste mundo. Tudo se paga, o bem, assim como o mal, cedo ou tarde se paga. O bem é muito mais caro... Necessariamente...

“(...)Acostumei-me, assim, pois, a sofrer
E acostumado a assim sofrer existo...
Existo! – E apesar disto
Inda cadáver hei também de ser!

Quando eu morrer de novo, amigos, quando
Eu, de saudades me despedaçando,
De novo, triste e sem cantar, morrer,

Nada se altere em sua marcha infinda
- - O tamarindo reverdeça ainda,
A lua continue sempre a nascer!”

(Persigal pega o saco e sai. Pessoas conversam sobre futebol enquanto a luz vai apagando...)

HOMEM 1 – Não adianta escalar três zagueiros, camarada. Já viu zagueiro saber fazer gol? Só faz na cagada...

HOMEM 2 – Mas o time vai entrosar. Aí eu quero ver quem vai nos segurar...

PERSIGAL – (grita de fora da cena) Vamos celebrar!!!


FIM







Este texto é uma tentativa de montar algo baseado em vários outros textos, inter-textualizando-os para outro fim. Os textos utilizados, ora como trechos citados, ora como influência direta: Persigal, de Neander Cortez, Cenas da Penitenciária (conto) e Notas de um velho safado, de Charles Bukovski, Morte a Crédito e A vida e a obra de Semmelweis, de Cèline, Falas a Dioniso em crise, de minha autoria, diversos fragmentos de poesia grega e latina e alguns poemas de Augusto dos Anjos, inclusive o poema Dolências, que dá nome ao texto e é declamado pelo personagem.

Hildeberto Abreu Magalhães
Compilador

7:30 PM  
Anonymous Anônimo said...

PONTE

aponte ponta minúscula em meu ponto
pinto meu céu parado
apreço pedido cuspido parado
para, para, péra aí
logo eu chego, quem sabe o outro lado
fujo, finjo, vejo, mas não sei
ando, sorrateiro, sei das tábuas
sei do perigo
sei da posse
não é de mim que só sinto
carrego no ombro uma outra estrela
e sei que a maioria delas mal posso ver
tudo bem, ao lado da sua , ou da minha, tem outra...
ponte, estrela, crença, amizade...

3:19 PM  

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