Visões, Viagens, Percepções

Uma mente inquieta num mundo em transformação constante e rápida. Uma criança ávida pela busca de saber melhor onde se encontra e qual seu papel nessa Grande e Divina Suruba chamada Vida!

terça-feira, maio 22, 2007

Ultimo Diálogo.

- Olá querido! – Disse a alva face com negras vestes.

- Que fazes por aqui? Respondeu o rapaz com sua face demonstrando o esgotamento dos últimos dias.

- Pensei em passar pra dar um oi, talvez precise novamente de meus serviços.

Ele se lembrava muito bem da ultima vez que a vira. Havia sangue no ar e estilhaços para todos os lados.

- Nunca é o suficiente pra você não é? Maldita profissão que escolheste. – Sua face não apresentava alterações, havia bastante cansaço para que ele se irritasse novamente com a dama.

- Profissionalismo meu caro. Você pregou tanto isso ao longo de sua vida e agora pede para que eu me furte aos compromissos?

O rapaz enfia a mão no bolso do moletom vermelho e saca de um maço de cigarros americanos, trêmulo, leva um até os lábios ressecados e com a outra mão procura pelo isqueiro. Acende e puxa a primeira tragada, vigorosa. Sente seus pulmões se fartarem de veneno.

Em seguida desvia o foco de seu olhar perdido e encara a moça ao seu lado.

- Por que não se senta? Relaxe, mesmo que isso não faça diferença alguma.

A moça se posiciona à sua frente e lhe afaga a face com suas gélidas mãos.

- Não se preocupe querido. Não quero brigar com você. Venho em paz. Encare como a visita de uma velha amiga.

O vento outonal dos trópicos corria frio. Os cabelos embaraçados se movimentavam levemente, a barba espetava ainda mais com aquela sensação. Havia dias não se barbeava, não havia tempo, não havia vontade.

- Mas vejo seu semblante sereno dessa vez, não ofenderá à Deus hoje? – Perguntou a dama com sua voz suave.

- Não há deus a ser ofendido, o ciclo é contínuo e já me conformei com a perfeita estrutura da natureza. Não preciso ofender a mais ninguém, por enquanto.

- É, não surte efeito mesmo. Já experimentou chorar? Funciona para muitos, não que isso surta algum efeito para mim, não me comoverei, mas dizem fazer bem.

- Por hora aceito o conselho, mas o reservo para mais tarde. Quem sabe a escuridão seja uma boa máscara para disfarçar a fraqueza.

A mulher se senta e observa o movimento de luzes amareladas na via pública.

- São todos tão frágeis. E criam tanto em torno disso, não adianta seguro para a vida. Por vezes me divirto com tamanha ganância, até na hora da passagem é isso, preocupação com o dinheiro.

- As regras são outras aqui em baixo minha amiga. A humanidade adora seus vícios. São necessários para o próprio sentir-se humano.

- Bom, meu tempo se esgota, prepare os ritos, é chegada a hora.

- Sem ritos, deixe-me acabar o cigarro.

No ultimo trago o ser em negras vestimentas encosta a mão no ombro do rapaz.

As tosses são incessantes, o escarro rubro tinge a sarjeta.

Ele observa as estrelas calmamente em meio à crise, não há sentimento e o céu se aproxima cada vez mais, ele joga seu corpo rumo à imensidão calma do passeio público.

Os olhos cerram.

Rola a bituca pela valeta, queimando lentamente até ser tocada pelo sangue que a faz apagar.

Para sempre.

2 Comments:

Anonymous Anônimo said...

Oi Flávio,
Adorei conhecer seu blog, é muito original.
Sempre que estiver a fim de leituras profundas e intrigantes lhe farei uma visita!
Continue escrevendo.....
Beijos!
Fabíola

4:26 PM  
Anonymous Anônimo said...

A gente acha umas coisas interessantes pela net, né?!

12:28 PM  

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