Reflexão: Reflexos
Há o espelho com bordas enegrecidas pela ação do tempo.
Há uma face estampada, seus olhos entre abertos, a barba por fazer, o cabelo por cortar.
Há um reflexo de existência que reflete sobre seus reflexos no espelho.
Nunca atravessamos o mesmo rio duas vezes, suas águas nunca são as mesmas.
Nunca olhamos o mesmo reflexo no espelho duas vezes, a vazão por sobre a ponte da existência se amplia durante um período e depois o rio começa seu processo de assoreamento.
A areia invade seu percurso, os sedimentos da vida se depositam no leito e lá no fundo fica a parte grossa, a que realmente alimenta a vida aquática que depende do rio.
Nunca vemos o mesmo rosto estampado na face.
Há uma fotocópia mal configurada, por vezes escura demais, por vezes claro demais, dificilmente colorida.
Se inimiga ou amiga, alegre ou triste, art deco ou nouveau. Há a vida.
E além da vida, nos campos onde o maniqueísmo se esfaleca em fragmentos além de consciência ou espírito, há alguém.
Alguém que reflete sua existência na face estampada no espelho, sem que saibamos quem é, o que quer ou por que insiste em aparecer para que as dúvidas se ampliem.
No momento em que a luz (rápida) se reflete no espelho e dá traçado a um corpo, um indivíduo acredita se ver.
Grande erro, só vemos o que nosso limitado glóbulo ocular nos possibilita enxergar.
O que vemos?
Tudo...Nada, você decide.
Com que roupa eu vou no samba que você me convidou?
Com que certezas eu vou ao encontro que você marcou?
Com que cara e te direi o que se passou?
Com a mesma roupa, com as mesmas certezas e com a mesma cara que o espelho refletiu no momento de dar o retoque final à gravata. Que partes são essas?
Nenhuma...Todas as partes de um todo.
O fragmento. Da alma, da existência, do momento capturado pela luz e seu reflexo em uma superfície lisa e polida.
De onde viemos? Para onde vamos?
“To cansado e você também, vou sair sem abrir a porta e não voltar nunca mais”.
“Eu vou pra maracangáia. Vou de chapéu de palha.”
Para onde não haja o reflexo intocável e abstrato da concretude de uma imagem.
Para onde haja alma, espírito, fios condutores de realidades possíveis.
Vou para o lado inconsciente da mente.
Vou para onde nasce o sol pela manhã e voltarei para onde ele se deita ao crepúsculo de um dia de inverno (onde os dias são mais curtos)
E aí sim terei a noite. Minha amiga, minha amante, o reflexo real do qual quero me recordar.
Mesmo que as seduções dessa generosa dama me impeçam desse feito na manhã seguinte, no local onde nasce o Sol.
