Sonhos
Há sempre uma ponte, incompleta, sempre falta um pedaço na ponte. E há o perigo. Não se pode atravessar aquele rio com a ponte incompleta. Mas mesmo assim continuo o caminho, existem alguns pedaços de madeira podre por onde tento atravessar. Elas se rompem, sempre se rompem.
Os sonhos da infância nos parecem tão reais, talvez mais reais do que os fatos que realmente vivenciamos. A fantasia nos inspira mais que a realidade e sempre acrescentamos algo às nossas realidades para que talvez sejam menos reais e mais fantasias.
As fantasias talvez tenham algo de real, sem elas não seríamos capazes de sermos tão reais. Há realidade demais. E os sonhos sempre voltam.
Em meus sonhos não consigo ser violento, meus tiros não ferem e meus violentos movimentos ocorrem sempre em câmera lenta. Nunca me machuco ou a alguém. Ninguém sai ferido.
Acompanho então o noticiário, e a violência está lá. Serão meus sonhos um porto seguro? Cansei de falar sobre cais e barcos. Aviões que descrevem piruetas no céu. Mas nunca andei de avião.
Cada um conhece sua dor, todos, sem exceção temos o ponto onde dói, a maldita ferida que não cicatriza.
A morte cheira a sangue fresco. È quase imperceptível a diferença entre o cheiro do sangue necessário à vida e o que se esvai com a morte. A vida tem cheiro de morte e talvez, mas só talvez, exista a vida após a morte.
Mas briguei com um Cara. Esse Cara se acha o dono do mundo. Alguns o vêm como o salvador. Para mim, um grande ditador. Ou talvez distorçam suas mensagens em forma de punições e doutrinas sociais. Nunca matei, nunca roubei (copos em buteko contam?), já cobicei a mulher alheia.
Mas o mundo é minha ponte, sempre falta um pedaço, para conseguir atingir meus objetivos tenho que atravessar por tábuas de madeira podre que se rompem sob as passadas de um metro e noventa de pura descrença.
Um sorriso, uma dose violenta de felicidade, é disso que preciso. O trago de um líquido feminino que gere vida.
E nesse instante acordo com o sol queimando meu ombro, mas da próxima vez não me virarei para o lado para que ele reflita em minhas costas e não no meu rosto. Sorry Buk. Encararei seus reflexos até me cegar. Como são os sonhos de um cego que nunca enxergou na vida? Isso eu não poderei responder, mas criarei meu próprio mundo inventando signos lingüísticos para descrever os objetos ao meu redor. My world, my rules.
E continuarei a dormir até tarde, sonhando não mais com pontes, mas sim com a não interferência do homem na natureza, com a necessidade de que eu cuide de meu corpo para que ele resista à travessia.
