Ultimo Diálogo.
- Olá querido! – Disse a alva face com negras vestes.
- Que fazes por aqui? Respondeu o rapaz com sua face demonstrando o esgotamento dos últimos dias.
- Pensei em passar pra dar um oi, talvez precise novamente de meus serviços.
Ele se lembrava muito bem da ultima vez que a vira. Havia sangue no ar e estilhaços para todos os lados.
- Nunca é o suficiente pra você não é? Maldita profissão que escolheste. – Sua face não apresentava alterações, havia bastante cansaço para que ele se irritasse novamente com a dama.
- Profissionalismo meu caro. Você pregou tanto isso ao longo de sua vida e agora pede para que eu me furte aos compromissos?
O rapaz enfia a mão no bolso do moletom vermelho e saca de um maço de cigarros americanos, trêmulo, leva um até os lábios ressecados e com a outra mão procura pelo isqueiro. Acende e puxa a primeira tragada, vigorosa. Sente seus pulmões se fartarem de veneno.
Em seguida desvia o foco de seu olhar perdido e encara a moça ao seu lado.
- Por que não se senta? Relaxe, mesmo que isso não faça diferença alguma.
A moça se posiciona à sua frente e lhe afaga a face com suas gélidas mãos.
- Não se preocupe querido. Não quero brigar com você. Venho em paz. Encare como a visita de uma velha amiga.
O vento outonal dos trópicos corria frio. Os cabelos embaraçados se movimentavam levemente, a barba espetava ainda mais com aquela sensação. Havia dias não se barbeava, não havia tempo, não havia vontade.
- Mas vejo seu semblante sereno dessa vez, não ofenderá à Deus hoje? – Perguntou a dama com sua voz suave.
- Não há deus a ser ofendido, o ciclo é contínuo e já me conformei com a perfeita estrutura da natureza. Não preciso ofender a mais ninguém, por enquanto.
- É, não surte efeito mesmo. Já experimentou chorar? Funciona para muitos, não que isso surta algum efeito para mim, não me comoverei, mas dizem fazer bem.
- Por hora aceito o conselho, mas o reservo para mais tarde. Quem sabe a escuridão seja uma boa máscara para disfarçar a fraqueza.
A mulher se senta e observa o movimento de luzes amareladas na via pública.
- São todos tão frágeis. E criam tanto em torno disso, não adianta seguro para a vida. Por vezes me divirto com tamanha ganância, até na hora da passagem é isso, preocupação com o dinheiro.
- As regras são outras aqui em baixo minha amiga. A humanidade adora seus vícios. São necessários para o próprio sentir-se humano.
- Bom, meu tempo se esgota, prepare os ritos, é chegada a hora.
- Sem ritos, deixe-me acabar o cigarro.
No ultimo trago o ser em negras vestimentas encosta a mão no ombro do rapaz.
As tosses são incessantes, o escarro rubro tinge a sarjeta.
Ele observa as estrelas calmamente em meio à crise, não há sentimento e o céu se aproxima cada vez mais, ele joga seu corpo rumo à imensidão calma do passeio público.
Os olhos cerram.
Rola a bituca pela valeta, queimando lentamente até ser tocada pelo sangue que a faz apagar.
Para sempre.