Visões, Viagens, Percepções

Uma mente inquieta num mundo em transformação constante e rápida. Uma criança ávida pela busca de saber melhor onde se encontra e qual seu papel nessa Grande e Divina Suruba chamada Vida!

domingo, novembro 26, 2006

Viagem: Busca por uma Percepção.

Tudo é calmo em uma manhã dominical de uma família de descendentes de misturas étnicas nos trópicos.

Como a canção que soa chiada no rádio à pilha, como os grunhidos do velho ventilador que vê sua força se esvair devido a idade.

Os sentidos tomam sentidos adversos e não consigo direcioná-los.

A humanidade por vezes nos impede de sermos mais humanos. Acho que posso dialogar com Ginsberg no momento em que se diz encantado por anjos ou alguma nova máquina.

A angelical maquinaria seduz os limitados glóbulos oculares. E de tão limitados nos limitam à humanidade.

Tudo ao nosso redor parece ser um limitador, não que Huxley tenha atingido uma nova percepção da realidade, apenas expôs uma possibilidade.

O léxico infindável e criativo da mente humana gerado ao longo dos anos em símbolos fonéticos multifacetados que nos permitem exprimir. Sentimentos, viagens, percepções.

O homem segue com seu quebra cabeça, com seus dominós enfileirados em direção ao infinito, caindo um a um lentamente, tão sublime quanto boulevares neo-clássicos pós 1860 e coreografias que esbarram às portas da perfeição treinados à exaustão em temperaturas sub zeros nas tundras eslavas.

A humanidade se cegou pela tecnologia, mas um dia seremos tecnologicamente humanos a ponto de criarmos sentimentos.

A química imperfeita do amor, a matemática de um sorriso, a física do ato sexual. Tecnicismos abstratos que não explicam nada.

A química se reflete no toque dos amantes, as mais complexas equações vão por terra frente ao sorriso que cria calor em corações, a física fez novamente seu papel. Dê me o calculo exato da quantidade de energia gerado no momento do êxtase de uma mulher.

Nesses pequenos fragmentos de extrema abstração talvez possa crer na presença de Deus, ou não buscar o místico e entregar-me ao fato de que mais do que as explicações, os embates científicos, as publicações, estamos exercendo nosso sagrado direito de sermos humanos.

A perfeita imperfeição do livre arbítrio, a condição negada aos anjos.

Os paradoxos que criamos apenas para que possamos nos sentir uns aos outros.

O ciúme, a inveja, o desejo, o carinho, todo o leque de sentimentos abstratos que um ser pode perceber fluir por entre as entranhas da criação.

O ultimo suspiro e o primeiro choro. A vida e a morte, a consciência irracional dos sentimentos. Sabemos-nos humanos. Humanos demais para que nós mesmos possamos explicar-nos.

segunda-feira, novembro 20, 2006

Mutação

O orvalho da manhã acariciava com leveza as verdes folhas.

O início da mutação natural, não uma evolução; transformação, mudança.

A mudança era o receio da pequena flor.

Via a vida desabrochando a todo momento, cadáveres que fortaleciam as raízes de sua mãe. O putrefato que gera vida.

Era assustador a sensação de se imaginar para morrer. Um rompimento muito forte que lhe causava náuseas. Medo.

A definição abstrata do medo, o sangue frio, suor gélido, o estômago carregando o peso de um engarrafamento de caminhões em metrópoles cosmopolitas.

A vida se abre ao mistério. Incerta incerteza. Seria realmente uma incerteza? Ou a certeza de mais uma peça aprontada pelos Deuses.

Se Poseidon abriu os mares aos portugueses, o fechou à Odisseu. Pobre Odisseu, tudo por sua flor. Uma flor que desabrochou na aurora dos tempos e que após findar foi colocada em um livro tecido com o couro de suas criações. A flor se tornou uma múmia seca e imortal.

Mas haviam perguntas a serem feitas. Sempre há. Os deuses possuem a onisciência, mas não o livre arbítrio. Esse é o ponto que nos nega a onisciência, podemos escolher e as escolhas não são certas, geram as dúvidas, sendo assim, somos nós os criadores, pois criamos as dúvidas e buscamos a resposta, às vezes por toda a existência e no final, nada encontramos.

Não há o que se buscar, há o que se viver.

E a vida desabrocha, o botão se converte em flor, embeleza os campos, energizando com sua fragrância todo um espaço aberto à possibilidade.

Talvez a flor apenas se preste a isso, embelezar um espaço. Mas o livre arbítrio.

Essa flor pode gerar emoções. Um amante a colhe com o coração acelerado. A entrega a sua amada, é o início do desabrochar de mais um sentimento. E aquela flor habitará para sempre a memória de seu destinatário, enfeitando o beiral de sua cama e posteriormente sendo colocada em um livro antigo no canto da estante.

Mas sua memória será eterna.

As mutações naturais, as mutações induzidas, as dúvidas naturais e as duvidas induzidas. Dúvidas transgênicas geradas no momento em que um participante da divinal suruba se perde na multidão.

A tão vasta e colorida multidão, com suas cores, raças, credos, vícios, alegrias e medos.

Observe a multidão, sinta o psicodélico caleidoscópio de experiências que somente o individual observando a coletividade é capaz de sentir.

E novamente retornamos às perguntas que nunca se explicam. As perguntas que levaram a humanidade a organizar conglomerados religiosos que vendem esperança.

Quer esperança pergunta o poeta?

“Invente-as”.


PS: Para um dia 20 de um mês de primavera nos trópicos.

quinta-feira, novembro 16, 2006

O ultimo filho da puta na esquina do Inferno

A casaca preta lhe servia bem.

A cartola desgastada pela ação do incessante calor ainda reservava o charme das noites de orgia nas madrugadas cosmopolitas.

Estava lá. Todos podiam vê-lo, apenas não havia ninguém para.

Em gesto certeiro sacou de sua carteira de prata, apanhou um cigarro de fumo cubano e o acendeu com seu isqueiro a querosene.

Relembrava as absintas noites de sua vida.

A morte lhe era um martírio, pouco se considerado à sua devassidão.

Visitara o inferno e o achaste mais aconchegante que as espeluncas ao norte da África.

O ópio apaziguava a vista, mas mesmo assim havia charme. Carne barata nos mercados de pulgas.

As raparigas com suas vergonhas gordinhas a vista eram uma vista tentadora para o voraz apetite daquele tão bem trajado cavalheiro.

Discutia sobre a liberdade na França, sobre uma Europa unida e desejava a cabeça de reis.

Mas seu sangue impuro destilava veneno, seus ideais não corroboravam suas atitudes.

As absintas noites, as opeáceas noites, lascivas noites de jogatinas e devassidão financiada.

Tudo que o poder pode comprar.

Os negócios prosperavam, seguia tratamento indicado por Doutor Freud. Parecia surtir algum resultado, mas as fantasias pareciam cada vez mais perigosas, trazia a memória de suas noites em seu corpo.

Tatuagens tribais da polinésia, adereços árabes e cicatrizes cravadas na brancura de sua européia pele pelas mais hábeis mãos que o dinheiro pode comprar no mundo.

As meninas francesas do Rio de Janeiro, as mouras de Bagdá, os olhos entreabertos da China, a negritude da África. Mercadorias pensantes em mercados vivos.

A última tragada.

Sob a casaca negra se esconde a frieza de uma garrafa de prata com uma pequena dose de torpor.

O ultimo pensa na vida e contempla a morte.

Estaticidade, esse é o sentido que encontra naquele momento, não procura mais o sentido da vida e encontra o da morte, ter negado todos os pecados que para ele abriram todas as portas do submundo.

Sempre gostou do submundo, sempre teve a indecência como seu leal escudeiro e o desprezo pela vida.

Lá estava ele.

Outro cigarro, o último.

Uma lágrima escorre. da face do ultimo filho da puta na esquina do inferno.