Alguns Centímetros
Merde!
Que se levantem as cortinas.
O circo de aberrações mentais de uma mente distorcida está de volta a todo vapor.
Como palavras encaixadas no tom. Uma voz que se transforma em instrumento.
Sol da meia noite. Meia luz na paulicéia. Reflexos de incontáveis lâmpadas de sódio em céus encobertos por monóxido de carbono e partículas de água mais pesadas que o ar.
O concreto armado mofado pela ação do tempo e escurecido pelo tráfego.
Os trens seguem seus destinos pré estabelecidos, eles não saem dos trilhos, e os trilhos deslizam rasgando a pele enrugada e coberta de cicatrizes de um pedaço de terra onde os pedaços de latifúndios são geminados.
Entre milhares de janelas que mantém a luz acesa durante a madrugada. Quando seu veneno se destila em mentes atormentadas e apaixonadas. Uma garrafa de vinho, alguns tipos diferentes de tabacos e uma pasta à Italiana.
Há a colcha de retalhos colorida, em algum canto ela se esconde. Rostos a alguns centímetros. A distancia necessária para se percorrer toda a existência e deixar de se questionar de onde viemos e para onde vamos.
As fumaças, de todos os tipos, cores, raças e credos.
E o calor. A efervescência do espírito em todo o espaço necessário para se descobrir onde está. Cinco centímetros, só malditos cinco centímetros.
Cinco centímetros inseridos nas pequenas partes do desvairado latifúndio. Corrompido pelo interesse imobiliário, pago com os salários mais variados, das mais variadas geminações que a mente e os organismos humanos são capazes de criar.
“Acho que estou gordo. Podia cortar o cabelo. Podemos viajar no final de semana?”
Merde.
Uma peça mal ensaiada onde ninguém sabe ao certo o momento de improvisar e o momento de se dedicar à fala. Falas pré-estabelecidas.
Concreto armado, ferro e vidro. Mosaico desconstrutivista de uma realidade humana.
Sentidos, sentimentos e carne. Mosaico hermeticamente perfeito de outra realidade humana.
Uma pela outra? Dentro uma da outra.
Deram as mãos.
Vista: uma rua úmida pela chuva do fim da tarde. As lâmpadas de sódio amarelando todo o ambiente. Um prédio, algumas luzes. No quinto andar, janela da direita, um quarto de dormir. Uma cama desarrumada e uma colcha de retalhos de cores quentes. Dois corpos desnudos.
- “Que dure, que seja eterno, que se perpetue o momento.”
- “Qual a distância? Cinco centímetros? Não....acho que menos. Perfeito”.
